Um medicamento derivado da canábis acaba de produzir os dados humanos mais sólidos até hoje sobre um dos sintomas mais duros da demência. Os títulos foram entusiásticos. Mas ficou de fora um pormenor de que quase ninguém fala: nos estudos com animais, uma proporção mal escolhida entre as duas moléculas não só não ajudou como agravou o quadro de forma mensurável.
Em julho de 2026, uma equipa norte-americana apresentou em Londres os resultados de um ensaio no qual uma associação específica de THC e CBD reduziu a agitação em cerca de 90% dos doentes com demência em fase avançada. Os dados vêm do ensaio de fase 2 LiBBY, apresentado no congresso internacional da Alzheimer’s Association, e são cientificamente relevantes. O problema começa quando esse preparado padronizado, administrado sob vigilância médica, é confundido com um óleo de CBD comprado na internet. Não são a mesma coisa, e é exactamente aí que reside o essencial.
O essencial em poucas linhas
A pergunta «o CBD serve para a doença de Alzheimer?» esconde, na verdade, três perguntas diferentes. Quanto aos sintomas comportamentais — a agitação, a inquietação, os episódios de irritabilidade —, existem finalmente dados obtidos em pessoas e apontam num sentido favorável. Quanto a saber se os canabinóides travam a doença em si, a resposta honesta é que não se sabe: tudo o que aponta nessa direcção vem de roedores e culturas celulares, e nenhum ensaio em humanos o demonstrou. Já a terceira pergunta, a da dose e da proporção entre CBD e THC, revela-se determinante: nos modelos animais, as proporções desequilibradas acentuaram os comportamentos de tipo ansioso e depressivo. Se está a ler isto porque tem um familiar doente, é esse terceiro ponto que merece mais atenção, porque é precisamente o que costuma ser saltado.
Uma pergunta que são três
Quase toda a confusão em torno deste tema nasce do facto de uma mesma palavra designar três realidades distintas. Ao separá-las, o quadro torna-se muito mais claro.
Primeira: há efeito sobre a agitação e as alterações do comportamento? Sim, e é aqui que existem finalmente dados obtidos em pessoas. Segunda: trava ou reverte a doença de Alzheimer? Não se sabe. Tudo o que aponta nesse sentido vem do laboratório. Terceira: a dose e a proporção entre CBD e THC contam? Contam imenso. Quem tiver estes três níveis presentes já percebe o assunto melhor do que a maioria das páginas que disputam estas pesquisas.
O ensaio LiBBY: o que foi medido exactamente
O estudo chama-se LiBBY, a partir da sigla inglesa para «benefícios do canabidiol e do tetra-hidrocanabinol em fim de vida». Testou uma preparação oral identificada como T2:C100 — 2 mg de THC associados a 100 mg de canabidiol — contra placebo.
A metodologia foi rigorosa: ensaio multicêntrico, aleatorizado, em dupla ocultação, controlado por placebo, ao longo de doze semanas, financiado pelo Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos. Participaram 120 pessoas com doença de Alzheimer ou outra forma de demência, todas elegíveis para cuidados paliativos e com agitação clinicamente significativa. A idade média era de 81 anos, 55% eram mulheres e três em cada quatro viviam em casa e não em instituição — precisamente o perfil de doente que os ensaios clínicos costumam excluir.
Os resultados foram expressivos. O critério principal era a variação da agitação medida pela escala de Cohen-Mansfield às duas semanas: o grupo tratado registou uma redução superior em 6,27 pontos à do placebo. Às doze semanas, a agitação tinha melhorado em cerca de 90% das pessoas tratadas. Um dos responsáveis pelo estudo referiu que nunca antes se tinha observado um nível de resposta semelhante em ensaios sobre demência.
Porque é que este resultado pesa tanto? Porque a agitação está entre os sintomas neuropsiquiátricos mais difíceis de gerir na demência avançada. As opções farmacológicas disponíveis — antipsicóticos, sedativos, opióides — são limitadas e acarretam riscos reais em pessoas idosas e frágeis. Os trabalhos anteriores sobre canabinóides não tinham permitido conclusões claras sobretudo por incidirem em amostras demasiado pequenas.
A ressalva conta tanto como o resultado. Especialistas independentes sublinharam que a relação entre benefícios e riscos dos canabinóides em doentes com demência continua por esclarecer, e que são necessários estudos mais amplos para avaliar o risco de quedas, o efeito sobre a cognição e a formulação óptima. É um sinal forte, não um assunto encerrado.
Canabinóides e Alzheimer: o que diz o conjunto da evidência
O LiBBY não surgiu do nada. A 29 de maio de 2026, o American Journal of Geriatric Psychiatry publicou uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu sete estudos, 221 participantes de seis países, com idades médias entre cerca de 73 e 87 anos. Foram analisadas cinco preparações diferentes — dronabinol, nabiximóis, nabilona, óleo de canábis medicinal com THC e um extracto de THC-CBD. A conclusão: as terapêuticas à base de canabinóides associaram-se a pontuações mais baixas de sintomas neuropsiquiátricos e agitação do que o placebo em doentes com Alzheimer moderado a grave. O sinal de segurança mais constante foi a sonolência. Como é habitual, os autores apelaram a ensaios mais amplos, com protocolos próprios para cada preparação, seguimento prolongado e vigilância sistemática da segurança — a fórmula consagrada para dizer «promissor, mas por resolver».
Onde as expectativas se adiantam à ciência
É aqui que a narrativa popular se afasta discretamente dos dados.
Uma revisão publicada em 2026 na Frontiers in Behavioral Neuroscience, realizada no Instituto Nencki de Biologia Experimental da Academia Polaca de Ciências, resume o que mostram os modelos animais: o CBD e o THC podem reduzir a acumulação de beta-amilóide, atenuar a fosforilação da proteína tau e regular a resposta inflamatória cerebral, muitas vezes a par de melhorias na aprendizagem e na memória. Um trabalho distinto, publicado em julho de 2026 na Biomedicine & Pharmacotherapy, descreveu que uma formulação de CBD em nanopartículas melhorou a memória, reduziu a inflamação cerebral e abrandou marcadores centrais da doença.
Tudo isto é encorajador. E tudo isto foi feito em ratinhos. Nenhum ensaio em humanos demonstrou alguma vez que um canabinóide abrande o processo da doença. É nessa distância — entre o que uma substância faz às placas amilóides de um ratinho e o que traz a uma pessoa com demência — que a esperança ultrapassa regularmente os factos.
O que quase ninguém conta: a proporção e a dose
Esta secção é a que distingue este artigo das dezenas de páginas concorrentes, e merece a maior atenção.
A mesma revisão documenta o que aconteceu quando os investigadores fizeram variar a dose e a proporção entre CBD e THC em modelos murinos da doença de Alzheimer. O padrão obtido não é o que a prateleira dos suplementos sugere.
| Formulação | Resultado observado |
|---|---|
| CBD + THC, 0,5 mg/kg de cada, durante 5 semanas (ratinhos APP/PS1) | Menos Aβ42 solúvel, alteração das características das placas, menor glutamato extracelular, maior recaptação de glutamato pelos astrócitos |
| THC 3 mg/kg + CBD 20 mg/kg (ratinhos APP/PS1) | Os défices cognitivos não foram corrigidos e o comportamento de tipo ansioso aumentou |
| CBD:THC 99:1 a 50 mg/kg (ratinhos 5xFAD) | Aumento do comportamento de tipo ansioso e depressivo, apesar da redução da complexidade das placas e de melhor remoção pela microglia |
A última linha merece uma leitura pausada. Uma preparação muito rica em canabidiol e praticamente sem THC — ou seja, o perfil da maioria dos óleos de CBD vendidos ao público — reduziu as placas e, ao mesmo tempo, agravou os comportamentos de tipo ansioso e depressivo dos animais. A própria revisão conclui que o potencial terapêutico nestes modelos depende fortemente da dose, da duração do tratamento e da proporção entre canabinóides, e que as doses elevadas e as proporções desequilibradas não produziram resultados favoráveis de forma consistente.
Esta interacção entre as duas moléculas é mensurável para além dos modelos de demência. Observa-se também em pessoas: a nossa análise sobre o CBD e a protecção da memória face aos efeitos do THC descreve esse efeito de proporção a partir de dados de consumidores reais. No campo da ansiedade, as observações convergem: os resultados que comparam produtos de predominância CBD e de predominância THC mostram que o perfil canabinóide pesa mais no desfecho do que a dose total.
Daí a conclusão prática, que é a frase mais importante de todo este texto. O resultado positivo do LiBBY vem de uma preparação concreta e padronizada, com pouco THC e muito canabidiol (2 mg de THC para 100 mg de CBD), administrada sob vigilância médica. Não é a mesma coisa que um óleo de concentração desconhecida comprado na internet. Tratar os dois como equivalentes é o erro mais frequente — e potencialmente o mais lesivo — neste assunto.
Portugal: números e enquadramento legal
Portugal está entre os países europeus mais afectados. Segundo o relatório The Prevalence of Dementia in Europe 2025, da Alzheimer Europe, viviam no país 238 401 pessoas com demência — 158 544 mulheres e 79 857 homens —, o que corresponde a 2,29% da população total, acima da média europeia de 1,77%. A projecção para 2050 aponta para 367 807 pessoas, ou 3,76% da população. Em rankings da OCDE, Portugal surge entre os primeiros países em número de casos por mil habitantes. A esta carga acresce um problema de diagnóstico: estima-se que uma larga maioria dos casos não chegue sequer a ser identificada, o que ajuda a explicar por que razão a Associação Alzheimer Portugal tem vindo a reclamar uma estratégia nacional para as demências.
Quanto ao acesso, Portugal dispõe de enquadramento próprio desde a Lei n.º 33/2018, que regula a utilização, a prescrição e a dispensa de medicamentos, preparações e substâncias à base da planta da canábis para fins medicinais. O Infarmed é a autoridade que autoriza estes produtos, e a dispensa faz-se em farmácia mediante receita médica. O país tornou-se, entretanto, um dos maiores produtores e exportadores europeus de canábis medicinal, com várias explorações certificadas — uma realidade industrial que convive com um acesso interno relativamente restrito.
O ponto decisivo para este tema é simples: as indicações abrangidas por este enquadramento não incluem a agitação associada à demência, e a preparação avaliada no ensaio LiBBY é um produto de investigação que não está autorizado em Portugal. Existe uma via legal para a canábis medicinal, mas hoje não está aberta para esta utilização concreta.
Brasil: um enquadramento que mudou em 2026
Para os leitores brasileiros, o cenário alterou-se substancialmente este ano — e vale a pena perceber o que mudou e o que não mudou.
O uso medicinal era regulado sobretudo pela RDC n.º 327/2019 da Anvisa, que definia condições de importação, fabrico, prescrição e dispensa de produtos à base de canábis, num modelo muito dependente de matéria-prima importada. A 28 de janeiro de 2026, a Diretoria Colegiada da Anvisa aprovou por unanimidade um conjunto de resoluções que estrutura pela primeira vez o cultivo em território brasileiro, em cumprimento de uma decisão do Superior Tribunal de Justiça proferida em novembro de 2024 no Incidente de Assunção de Competência n.º 16. A RDC n.º 1.011/2026 retirou a Cannabis sativa L. com teor de THC igual ou inferior a 0,3% da lista de substâncias proibidas da Portaria 344/98, e a RDC n.º 1.013/2026 estabeleceu os requisitos para o cultivo destinado a fins medicinais, farmacêuticos e de investigação.
Há, contudo, limites importantes. O cultivo só pode ser feito por pessoas colectivas que obtenham Autorização Especial junto da Anvisa, com inspecção sanitária prévia e exigências de rastreabilidade. A exportação da planta, incluindo sementes, ficou vedada. O cultivo por pessoas singulares, mesmo para fins medicinais, continua a depender de autorizações judiciais individuais, tipicamente por via de habeas corpus. E a própria Anvisa sublinhou que nada mudou quanto ao uso recreativo, que permanece crime ao abrigo da Lei n.º 11.343/2006, independentemente da descriminalização do porte para consumo pessoal decidida pelo Supremo Tribunal Federal.
Tal como em Portugal, a agitação associada à demência não figura entre as indicações previstas, e o preparado do ensaio LiBBY não está autorizado no Brasil.
O que isto significa para as famílias
Se chegou até aqui porque cuida de alguém, vale a pena reter algumas ideias, independentemente do país.
A evidência sustenta um uso estreitamente delimitado: reduzir a agitação na demência moderada a grave. Não a melhoria da memória nem o abrandamento da doença. São afirmações diferentes, e apenas a primeira tem suporte em estudos com pessoas.
As preparações não são intercambiáveis. Os ensaios com resultados positivos usaram formulações farmacêuticas padronizadas, com teor verificado de THC e CBD e doses fixadas por protocolo.
As interacções medicamentosas não são uma questão teórica. O canabidiol actua sobre as mesmas enzimas hepáticas que metabolizam muitos medicamentos comuns. Numa pessoa com mais de oitenta anos que já toma vários fármacos, isso pesa.
O risco de quedas e o efeito sobre a cognição continuam em aberto: os investigadores do LiBBY assinalaram-nos expressamente, e a sonolência acentuada foi o sinal de segurança mais frequente na meta-análise.
E, sobretudo, a conversa deve começar na consulta de neurologia, geriatria ou medicina geral e familiar, e não numa loja online. As equipas que acompanham estes doentes dispõem de abordagens próprias para os sintomas comportamentais, várias delas não farmacológicas.
Investigação a acompanhar
Uma parte desta história escreve-se em português. O ensaio DAZACANN, conduzido no Brasil pelo Laboratório de Cannabis Medicinal e Ciência Psicodélica de Foz do Iguaçu, no Paraná, entrou em fase aberta e avalia doses baixas de CBD e THC purificados — isoladamente e em associação — em doentes com doença de Alzheimer. Prossegue igualmente a extensão aberta do LiBBY, com apoio da Alzheimer’s Association, que deverá responder às questões de durabilidade do efeito e de segurança deixadas em aberto pelos primeiros resultados.
Perguntas frequentes
Não. Não existe qualquer evidência em humanos de que o canabidiol ou outro canabinóide trave ou reverta a doença de Alzheimer. Os trabalhos que mostraram redução de placas amilóides e de patologia tau foram feitos em ratinhos e culturas celulares, e os resultados obtidos em animais raramente se confirmam em pessoas.
Que uma preparação oral de 2 mg de THC com 100 mg de canabidiol reduziu significativamente a agitação em doentes com demência elegíveis para cuidados paliativos: uma melhoria superior em 6,27 pontos à do placebo às duas semanas, e resposta favorável em cerca de 90% das pessoas tratadas às doze semanas. O que foi medido foi a agitação, não a memória nem a evolução da doença.
Não, e este é o ponto decisivo. Os ensaios usaram formulações farmacêuticas padronizadas, com teor verificado de canabinóides e proporção definida entre THC e CBD, administradas sob vigilância médica. Os produtos de venda ao público variam bastante na concentração real e não são equivalentes. Nos estudos com animais, foram justamente as preparações muito ricas em CBD e com THC mínimo que agravaram o comportamento de tipo ansioso.
Não para esta situação, e as duas realidades são distintas. Em Portugal, a Lei n.º 33/2018 permite a prescrição e dispensa em farmácia de produtos à base de canábis autorizados pelo Infarmed, mas as indicações abrangidas não incluem a agitação associada à demência. No Brasil, o acesso a produtos assenta na regulação da Anvisa, reforçada em 2026 com novas resoluções que passaram a enquadrar o cultivo por pessoas colectivas com Autorização Especial, mantendo o cultivo individual dependente de autorizações judiciais e o uso recreativo como crime ao abrigo da Lei n.º 11.343/2006; também aqui a agitação na demência não é indicação prevista. Em ambos os países, a preparação avaliada no LiBBY é um produto de investigação sem autorização de introdução no mercado.
Aviso
Este artigo resume investigação clínica e pré-clínica revista por pares e tem finalidade exclusivamente informativa. Não constitui aconselhamento médico nem substitui a consulta com um profissional de saúde. Nenhum produto à base de canabinóides está aprovado pelas autoridades reguladoras como tratamento da doença de Alzheimer. Quem pondere o uso de canabinóides para um familiar com demência deve discuti-lo com um médico qualificado, sobretudo pela elevada probabilidade de interacções medicamentosas em doentes idosos. A regulamentação sobre canábis difere de forma substancial entre países e altera-se ao longo do tempo: convém confirmar sempre as regras em vigor na respectiva jurisdição junto de fontes oficiais.