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THC e pesadelos

THC e pesadelos pós-traumáticos: desapareceram por completo em mais de um terço dos doentes

Há um sintoma da perturbação de stress pós-traumático que a psiquiatria não conseguiu resolver em décadas, e não é a ansiedade nem a tristeza: é a noite. A pessoa volta a viver aquilo que lhe aconteceu, acorda em pânico e, com o tempo, começa a ter medo da própria hora de deitar. Não existe no mundo um único medicamento aprovado especificamente para os pesadelos ligados ao trauma. Uma equipa de Berlim acaba de testar um candidato inesperado.

Trata-se de um ensaio aleatorizado e controlado por placebo, conduzido na Charité – Universitätsmedizin Berlin com dronabinol, um medicamento sujeito a receita médica à base de tetra-hidrocanabinol (THC), o principal composto psicoativo da planta de canábis. Como a própria Charité descreve no comunicado sobre os resultados, mais de metade dos participantes respondeu ao tratamento e em mais de um terço os pesadelos desapareceram por completo. O trabalho integral foi publicado na Nature Medicine (DOI: 10.1038/s41591-026-04546-9).

O essencial em poucas linhas

O ensaio incluiu 171 adultos com perturbação de stress pós-traumático e pesadelos recorrentes, que durante dez semanas tomaram todas as noites, antes de deitar, dronabinol em doses de 2,5 a 15 miligramas ou um placebo idêntico no aspeto e aromatizado com sabor a canábis; nem os doentes nem os clínicos sabiam quem recebia o quê. Na escala clínica de zero a oito pontos que mede frequência e intensidade dos pesadelos, o grupo tratado melhorou em média 3,7 pontos e o grupo placebo 2,2 pontos, com uma diferença entre grupos de 1,50 pontos estatisticamente sólida. Mais de um terço de quem recebeu o fármaco declarou não ter pesadelos ao fim de dez semanas, outros 21 por cento referiram uma redução de pelo menos metade, e cerca de cinco em cada seis relataram uma melhoria clara do estado geral. O efeito revelou-se, contudo, estreito: nem a gravidade global da perturbação nem a depressão associada se alteraram de forma significativa. Os efeitos adversos foram sobretudo ligeiros ou moderados — tonturas, cefaleias, aumento do apetite —, mas registaram-se acontecimentos adversos graves em oito por cento do grupo tratado e em nenhum do grupo placebo. Após a suspensão não houve sintomas de privação, e desconhece-se por completo se o benefício se mantém para além dessas dez semanas.

Portugal produz para a Europa. Os doentes portugueses quase não veem nada disso

Este ensaio decorreu na Alemanha, mas há uma razão particular para o assunto interessar em português. Portugal transformou-se, em poucos anos, num dos maiores produtores e exportadores europeus de canábis medicinal. O clima, o custo da terra e um enquadramento legal relativamente claro atraíram operadores internacionais, e as estufas do Alentejo e do Centro do país abastecem hoje farmácias na Alemanha, no Reino Unido e em Israel.

O contraste com o acesso interno é evidente. A Lei n.º 33/2018 regula os medicamentos, preparações e substâncias à base da planta da canábis para fins medicinais, e cabe ao Infarmed autorizar produtos e supervisionar o circuito. Mas o número de doentes portugueses efetivamente tratados por esta via continua modesto, muito abaixo do que a capacidade instalada faria supor. Produz-se em larga escala para fora; prescreve-se pouco para dentro.

É neste desfasamento que uma investigação como a de Berlim ganha relevo local. Não porque altere alguma coisa amanhã — não altera —, mas porque as indicações reconhecidas são exatamente aquilo que determina quem consegue chegar a um medicamento e quem fica de fora.

No Brasil, o caminho passou pelos tribunais

O quadro brasileiro é outro e merece ser tratado em separado. A Lei 11.343/2006 continua a ser a base da política de drogas, e a RDC 327/2019 da Anvisa criou a via regulamentar para produtos de canábis vendidos em farmácia mediante prescrição. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu pela descriminalização do porte de canábis para consumo pessoal, fixando parâmetros de quantidade para distinguir utilizador de traficante — uma decisão que não legalizou o comércio nem o cultivo livre.

Na prática, uma parte significativa do acesso brasileiro construiu-se por via judicial: associações de doentes e famílias obtiveram autorizações através de habeas corpus para cultivar e produzir extratos, sobretudo em situações de epilepsia refratária e dor crónica. É um mecanismo caso a caso, dependente de decisão de tribunal, e não um programa de saúde. A cobertura pelo SUS mantém-se muito limitada.

Isto importa porque o Brasil tem, à escala, um problema de trauma que poucos países enfrentam. Estudos em centros urbanos brasileiros documentam prevalências de perturbação de stress pós-traumático — no país designada por transtorno de estresse pós-traumático — bastante acima das médias internacionais, associadas à violência urbana, a assaltos, a violência doméstica e à exposição profissional de polícias e socorristas. Onde há mais trauma e menos psiquiatria disponível, cada tratamento novo para um sintoma incapacitante pesa mais, não menos.

Porque é que a noite resiste tanto

A perturbação surge quando o cérebro não consegue arquivar corretamente uma experiência avassaladora. Em vez de se tornar uma memória que se evoca por vontade própria, o episódio permanece ativo e impõe-se sozinho. Também de noite, durante a fase de sono em que se sonha com mais intensidade e o cérebro organiza as experiências emocionais do dia. A pessoa acorda em pânico, por vezes várias vezes por semana, por vezes todas as noites durante anos.

A falta crónica de sono daí resultante não é um dano colateral: alimenta a irritabilidade, a ansiedade, as dificuldades de concentração e o humor deprimido, realimentando a própria perturbação.

As ferramentas farmacológicas são especialmente escassas neste ponto. Prescrevem-se antidepressivos e prazosina — um medicamento que na realidade baixa a tensão arterial — fora das indicações aprovadas; ajudam parcialmente algumas pessoas, mas os pesadelos costumam sobreviver intactos ao tratamento. Foi por isso que o grupo do professor Stefan Röpke, da clínica de psiquiatria e neurociências do campus Benjamin Franklin, decidiu procurar por outro lado.

A hipótese biológica por trás do THC

O THC não atua ao acaso no cérebro. Liga-se aos mesmos recetores que o sistema de sinalização do próprio organismo utiliza — o chamado sistema endocanabinoide, envolvido na resposta ao stress, na arquitetura do sono e no modo como as memórias emocionais são processadas e consolidadas durante a noite.

A hipótese concreta aponta para a fase de sono em que os sonhos são mais intensos. O THC atenua essa fase. Se o trauma é reproduzido precisamente aí, raciocinaram os investigadores, atenuá-la poderá interromper a reprodução. Röpke formula-o com prudência: há indícios, não um mecanismo demonstrado.

Os estudos observacionais apontam na mesma direção há anos. Um seguimento de doze meses que analisámos na nossa leitura sobre a qualidade do sono a longo prazo com canábis medicinal encontrou melhorias sustentadas em diferentes perfis de doentes e, ao mesmo tempo, verificou que as pessoas com stress pós-traumático continuavam a dormir pior do que todas as outras. Trauma não é o mesmo que insónia comum. O que faltava era um ensaio rigorosamente controlado.

Como foi desenhado o ensaio

O desenho corresponde ao que em psiquiatria se considera o padrão de referência: multicêntrico, aleatorizado, em dupla ocultação e controlado por placebo. Além da Charité participaram a clínica psiquiátrica universitária no Hospital Santa Edviges, o Centro Hospitalar Universitário de Hamburgo-Eppendorf e o Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim. Os 171 adultos foram distribuídos aleatoriamente: 87 para dronabinol e 84 para placebo. A idade média era de 37,9 anos e 79,3 por cento dos participantes eram mulheres.

Duas decisões do desenho merecem atenção.

A primeira: o medicamento era tomado apenas à noite, uma vez por dia. O tratamento visava as horas de sono e não os sintomas diurnos.

A segunda, menos óbvia mas decisiva: o placebo tinha sabor a canábis. Nos ensaios com canabinoides a ocultação falha com frequência porque os participantes percebem o que lhes calhou — e só a expectativa já produz melhoria. Igualar o sabor é uma tentativa séria de tapar essa falha, ainda que o efeito psicoativo do THC torne impossível uma ocultação perfeita.

A medida principal foi o item B2 da escala clínica de avaliação do stress pós-traumático, que pontua frequência e intensidade dos pesadelos de zero a oito. Às dez semanas a diferença entre grupos foi de 1,50 pontos (intervalo de confiança a 95 por cento de −2,28 a −0,71) e a dimensão do efeito de 0,65 segundo o d de Cohen — um valor notavelmente bom para um fármaco psiquiátrico.

Os números que não chegaram aos títulos

Três reservas mudam a leitura do resultado.

A resposta ao placebo foi muito elevada: 2,2 pontos em oito. Isso significa que cerca de 60 por cento da melhoria total observada no grupo tratado teria ocorrido igualmente com gotas sem princípio ativo. O contributo do dronabinol é real e estatisticamente firme, mas é a diferença entre grupos e não o efeito completo.

A gravidade global da perturbação e a depressão associada não melhoraram de forma significativa. Os doentes dormiram melhor e deixaram de reviver o trauma todas as noites, mas a doença continuava lá de manhã. É um tratamento sintomático, e os autores dizem-no sem rodeios.

E o dado de segurança que quase se perde nos resumos: houve acontecimentos adversos graves em sete doentes do grupo tratado (8,0 por cento) e em nenhum do grupo placebo. Os efeitos adversos no conjunto foram de 89,7 contra 77,1 por cento, sobretudo tonturas, cefaleias e aumento do apetite de intensidade ligeira a moderada, e as desistências por efeitos adversos foram até ligeiramente menores com o fármaco do que com placebo. Ainda assim, uma proporção de oito para zero em acontecimentos graves ao longo de dez semanas é um sinal que estudos maiores e mais prolongados terão de esclarecer. O ensaio contou com apoio financeiro da empresa Bionorica SE, com interesse comercial no produto: prática habitual no desenvolvimento de medicamentos e, simultaneamente, motivo para ler os dados com atenção.

O que o ensaio não pode responder

Dez semanas chegam para detetar um efeito e são insuficientes para quase tudo o que importa num uso prolongado. A preocupação central é a tolerância: sabe-se que a capacidade do THC para atenuar a fase de sono profundo diminui com a exposição repetida. Se isso acontecer ao longo de seis meses, o benefício terapêutico desaparece. A segunda incógnita é a segurança a longo prazo numa população onde as perturbações por consumo de substâncias são mais frequentes do que a média.

Convém sublinhar mais uma coisa: o que foi testado é um medicamento normalizado, sujeito a receita médica, em dose medida e a uma hora fixa. O ensaio nada diz sobre canábis fumada ou vaporizada, porque a dose, o momento e a via de administração estavam controlados e nenhum destes parâmetros se transfere para outros formatos.

O interesse científico pelos canabinoides e pelo sono tem crescido de forma evidente: na Tailândia, um ensaio aleatorizado com uma preparação tradicional obteve resultados comparáveis aos de um indutor do sono de uso corrente, e vários trabalhos recentes têm procurado separar aquilo que cada canabinoide faz — como mostra a investigação sobre as diferenças entre CBD e THC na ansiedade.

Perguntas frequentes

Isto significa que a canábis cura o stress pós-traumático?

Não. No ensaio alteraram-se os pesadelos e a qualidade do sono, ao passo que a gravidade global da perturbação e a depressão associada não melhoraram de forma significativa. Tratou-se um sintoma — muito incapacitante e muito resistente —, não a doença de fundo.

Porque é que o placebo deu um resultado tão elevado?

É habitual na investigação sobre sono e pesadelos. A participação num ensaio, as consultas regulares e a expectativa de melhorar produzem um efeito apreciável, e a medida assenta no relato do doente e não num registo instrumental. Sem grupo de controlo, números destes não são interpretáveis.

O dronabinol é o mesmo que fumar canábis?

Não. O dronabinol é um medicamento normalizado com THC, administrado em doses exatas de 2,5 a 15 miligramas a uma hora fixa. A flor de canábis fornece quantidades variáveis de THC juntamente com dezenas de outros compostos, por outra via e em momentos irregulares. Os resultados aplicam-se apenas à formulação e ao esquema estudados.

É possível obter este medicamento em Portugal ou no Brasil para esta indicação?

Não na prática. Em Portugal, a Lei n.º 33/2018 e a supervisão do Infarmed enquadram os medicamentos e preparações à base de canábis, mas não existe qualquer autorização para pesadelos associados ao trauma; qualquer utilização nesse contexto seria fora das indicações aprovadas e dependeria exclusivamente de decisão clínica. No Brasil, a RDC 327/2019 da Anvisa regula os produtos vendidos em farmácia mediante prescrição e uma parte relevante do acesso continua a fazer-se por via judicial, caso a caso, sem que exista igualmente indicação aprovada para este sintoma.

Aviso

Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e divulgativa e não constitui aconselhamento médico, nem substitui o diagnóstico ou a indicação terapêutica de um profissional. A investigação descrita é um único ensaio clínico de dez semanas; a eficácia e a segurança a longo prazo não estão estabelecidas. O dronabinol é um medicamento sujeito a receita médica e o enquadramento legal dos produtos com canábis difere substancialmente entre Portugal, o Brasil e outros países. Nada do aqui exposto deve ser interpretado como incentivo à obtenção ou utilização de canábis ou canabinoides fora de um enquadramento médico e legal. Quem apresente sintomas compatíveis com perturbação de stress pós-traumático deve procurar um profissional de saúde mental.

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