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Cannabis e amamentação: cientistas encontram resíduos de fumo na urina de bebés

Tanto em Portugal como no Brasil o acesso à cannabis medicinal tem crescido depressa — pela via do Infarmed e da produção para exportação na Europa, e pela via das autorizações da Anvisa e das decisões judiciais no Brasil. E, com esse acesso, instala-se uma certeza enganadora: a ideia de que um pouco de cannabis não faz mal, nem sequer durante a amamentação. Durante anos, a ciência respondeu a essa ideia encolhendo os ombros. Sabia-se que o THC passa para o leite materno. Mas se os restantes acompanhantes do fumo — aqueles compostos de nome industrial que se formam quando algo arde — chegam também ao bebé, era um mistério.

Um novo trabalho foi ver onde tudo se percebe com mais clareza: à fralda. Investigadores da Universidade Estatal de Washington, em conjunto com os Centros de Controlo de Doenças dos EUA (CDC), analisaram a urina de bebés alimentados exclusivamente com leite materno cujas mães consomem cannabis, e procuraram nela os chamados compostos orgânicos voláteis (VOC, na sigla inglesa). Os resultados, publicados a 15 de julho de 2026 no International Journal of Environmental Research and Public Health, vêm do estudo Lactation and Cannabis (LAC) e são os primeiros do género. São também mais matizados do que gostariam tanto o lado alarmista como o do “não é nada de especial”.

O essencial em breve

A versão curta, antes do detalhe. Na urina de bebés amamentados cujas mães consomem cannabis, os investigadores encontraram 24 produtos de degradação distintos ligados ao fumo, e os valores de muitos deles subiram depois de a mãe consumir, em comparação com uma medição de base feita após pelo menos doze horas sem cannabis. Duas dessas substâncias resultam de cancerígenos conhecidos — acrilonitrilo e acrilamida, os mesmos que existem no fumo do tabaco — e a sua concentração acompanhou a quantidade de THC no leite da mãe. E o mais importante: nos bebés de mães que fumaram, os valores foram bastante mais altos do que nos de mães que apenas vaporizaram. Mas, antes de nos assustarmos, duas coisas importam imenso: a amostra foi muito pequena (menos de vinte pares mãe-bebé) e as quantidades medidas foram até mais baixas do que a média norte-americana em crianças mais velhas. Os autores dizem sem rodeios que ainda não é possível tirar qualquer conclusão sobre segurança ou risco. Isto é uma primeira luz de lanterna num quarto escuro, não uma sentença.

O que os investigadores fizeram exatamente

A ideia foi simples. Participaram vinte mães a amamentar dos estados de Washington e Oregon, todas consumidoras habituais de cannabis e com bebés com menos de seis meses. No dia do estudo, cada mãe entregava primeiro uma medição “limpa”: uma amostra de leite e de urina do bebé, recolhida após pelo menos doze horas sem nada de cannabis. Depois consumia como está habituada — o seu próprio produto, o seu próprio método, nada fornecido pela equipa. Nas oito a doze horas seguintes recolhiam-se várias amostras de leite e de urina.

Recolher a urina de um bebé não é ciência glamorosa. As mães forravam uma fralda limpa com algodões estéreis, verificavam-na com frequência e passavam o recolhido para tubos minúsculos que iam direitos ao congelador de casa e, dali, em gelo, para um laboratório dos CDC. No fim, 65 amostras de urina de 19 pares mãe-bebé passaram o controlo de qualidade e entraram na análise.

As substâncias que ninguém quer no quarto do bebé

Com uma análise muito sensível (espetrometria de massa), os investigadores detetaram 24 das 32 substâncias procuradas. Quinze delas surgiram mais altas depois do consumo da mãe do que na amostra “limpa”. Todos os bebés tiveram pelo menos uma amostra com níveis detetáveis, o que indica que uma certa marca destes compostos faz, simplesmente, parte do ambiente moderno.

Duas substâncias concentraram as atenções. A primeira, abreviada 2CyEMA, é produzida pelo corpo após o contacto com acrilonitrilo, um cancerígeno usado no fabrico de plásticos e borracha sintética e presente no fumo do tabaco. A segunda, 2CaEMA, é a marca da acrilamida, também cancerígena e conhecida do fumo do cigarro (e que, curiosamente, aparece quando se tostam muito alimentos como batatas fritas ou torradas). Ambas subiram após o consumo materno e ambas aumentaram a par do THC no leite. Por outras palavras: mais THC no leite, mais destes produtos de degradação no bebé.

Fumar ou vaporizar: onde se nota a diferença

Este é, talvez, o resultado mais aplicável à vida real. Nos bebés cujas mães fumaram no dia do estudo, o marcador ligado ao acrilonitrilo foi, em média, cerca de 89 % mais alto do que nos bebés de mães que apenas vaporizaram. Com a acrilamida, o mesmo padrão.

A química por trás percebe-se com facilidade. Na combustão — quando se põe mesmo fogo ao material vegetal — a temperatura é muito mais alta do que ao vaporizar, e é esse calor que “forja” substâncias como o acrilonitrilo e a acrilamida. O vaporizador aquece a cannabis abaixo do limiar em que se gera a maior parte destes compostos, pelo que menos deles acabam no aerossol, no sangue e, ao que parece, no bebé. É um padrão que já se vê com o tabaco e que se enquadra na tendência mais ampla de como quem consome combina cada vez mais fumar, vaporizar e outros métodos, cada um com a sua própria assinatura química. <!– REDAÇÃO – NÃO PUBLICAR: a ligação interna aponta provisoriamente para o URL em inglês. Antes de publicar, mudar para o slug /pt-pt/ quando confirmado, p. ex. /pt-pt/seis-perfis-consumo-nicotina-tabaco-cannabis-jovens/ – verificar o slug real. –>

Além disso, essa mesma diferença entre queimar e vaporizar reflete uma viragem mais ampla nas formas de consumo, do fumo puro para as formas inaladas e vaporizadas e para os comestíveis. <!– REDAÇÃO – NÃO PUBLICAR: a ligação interna aponta provisoriamente para o URL em inglês. Antes de publicar, mudar para o slug /pt-pt/ quando confirmado, p. ex. /pt-pt/cannabis-inalada-neuropatia-diabetica-dor/ – verificar o slug real. –>

Note-se, contudo: quem apenas vaporizou eram só duas, pelo que esta comparação, por mais impressionante que seja, assenta numa base muito ténue.

O contexto que os títulos ignoram

Agora, a parte que mantém tudo isto dentro do honesto. Quando os investigadores compararam os valores dos seus bebés com dados nacionais dos CDC, o resultado foi antes tranquilizador: para a maioria das 32 substâncias, a média em crianças norte-americanas dos três aos cinco anos era pelo menos 40 % mais alta do que nestes lactentes. Ou seja, medidos por essa régua (imperfeita, é certo), os bebés do estudo não estavam a nadar num caldo químico. A exposição era real, mas antes no extremo baixo.

Convém lembrar também porque tantas mães recentes recorrem à cannabis. Os primeiros meses após o parto trazem dor, exaustão, ansiedade e insónia, e a muitas a cannabis parece — nem sempre com razão — uma via suave para lidar com isso. Essa perceção alimenta o aumento do consumo durante a amamentação, e explica também porque cada vez mais adultos recorrem à cannabis para dormir ou aliviar o stress. <!– REDAÇÃO – NÃO PUBLICAR: a ligação interna aponta provisoriamente para o URL em inglês. Antes de publicar, mudar para o slug /pt-pt/ quando confirmado, p. ex. /pt-pt/cannabis-medicinal-qualidade-sono-estudo-2025/ – verificar o slug real. –>

Perceber os prós e os contras, em vez de distribuir proibições genéricas, é precisamente o que estudos como este permitem.

O que o estudo NÃO diz

Há que reconhecer aos autores como são claros quanto aos limites do seu trabalho, e qualquer leitura honesta tem de o repetir. Primeiro, o estudo LAC original nunca foi desenhado para medir exposição a VOC, pelo que a equipa não conseguiu excluir outras fontes: fumo passivo de outras pessoas em casa, resíduos depositados nas superfícies (o fumo de terceira mão) ou até a alimentação. A urina de um bebé não diz se a substância chegou pelo leite, pelo ar ou da almofada do sofá.

Segundo, não houve grupo de comparação — bebés de mães que não consomem cannabis —, o que torna impossível isolar a cannabis como causa com total certeza. Terceiro, a amostra foi pequena e as mães usaram produtos muito diferentes em doses muito diferentes, pelo que daqui não sai uma fórmula limpa do tipo “tanta cannabis equivale a tanto risco”. E, quarto, o mais importante: ninguém sabe o que estas quantidades concretas fazem a um bebé em pleno desenvolvimento. O acrilonitrilo e a acrilamida estão associados a cancro em adultos após exposição prolongada; o que significam os vestígios aqui encontrados, nesta idade, é simplesmente desconhecido.

O que isto significa em Portugal e no Brasil

Nem motivo de pânico nem luz verde. O trabalho traz uma primeira evidência sólida de que a química do fumo da cannabis — e não só o seu THC — pode chegar a um bebé amamentado, e de que a forma de consumo conta. Para uma mãe que pondera opções, a diferença entre fumar e vaporizar é um dado concreto, ainda que a ciência que o sustenta seja jovem.

Importa separar os dois enquadramentos legais, porque são distintos. Em Portugal, o consumo para uso pessoal está descriminalizado desde 2001 e a cannabis medicinal é regulada pelo Infarmed ao abrigo da Lei n.º 33/2018, num país que se tornou um polo europeu de produção e exportação de cannabis medicinal. No Brasil, a Lei 11.343/2006 continua a ser a base do regime de drogas; em 2024 o Supremo Tribunal Federal (STF) fixou um limite de referência para presumir uso pessoal, e o acesso medicinal faz-se pelas resoluções (RDC) da Anvisa, além das autorizações de cultivo que muitas famílias obtêm por via judicial, através de habeas corpus. O ponto comum é que nenhum destes enquadramentos declara a cannabis inócua durante a amamentação: essa é uma questão clínica à parte, e as orientações pediátricas e obstétricas dos dois países continuam a aconselhar que se evite o consumo enquanto se amamenta. Este estudo não altera essa recomendação. O que muda é que a casa “exposição desconhecida a VOC” no mapa de riscos passa a ter números concretos — pequenos, mas números — e um próximo passo claro: estudos maiores, com grupo de comparação, que digam por fim se algo disto importa para a saúde do bebé a longo prazo.

Perguntas frequentes

Este estudo prova que a cannabis no leite materno faz mal aos bebés?

Não, e os autores são enfáticos nisso. Prova apenas que nestes bebés se podem detetar substâncias ligadas ao fumo e que algumas sobem após o consumo da mãe. Se essas quantidades causam algum dano é desconhecido, e o estudo não conseguiu provar que a cannabis seja a única fonte. É um ponto de partida para a investigação, não um veredicto de saúde.

Vaporizar é mais seguro do que fumar durante a amamentação?

O estudo encontrou níveis mais baixos de dois produtos de cancerígenos nos bebés de mães que vaporizaram em vez de fumar, o que encaixa na química da temperatura mais baixa do vaporizador. Mas “mais baixo” não é “seguro”: o THC passa para o leite com qualquer método, e o grupo que apenas vaporizava era muito reduzido. É um sinal relevante, não um aval do vaporizador.

O que diz a lei em Portugal e no Brasil sobre a cannabis e a amamentação?

São regimes distintos. Em Portugal, o uso pessoal está descriminalizado desde 2001 e a cannabis medicinal é regulada pelo Infarmed (Lei n.º 33/2018). No Brasil, aplica-se a Lei 11.343/2006, com o limite de referência para uso pessoal fixado pelo STF em 2024, enquanto o acesso medicinal segue as resoluções da Anvisa e, no caso do cultivo, autorizações judiciais por habeas corpus. Nenhum destes quadros se pronuncia sobre a segurança durante a amamentação, que é uma questão clínica. Para decisões concretas, deve consultar-se pessoal de saúde.

Quanto THC chega, na realidade, ao bebé?

Neste estudo, a ingestão diária média estimada de THC por bebé através do leite variou entre cerca de 0,002 e 0,196 miligramas por dia, com uma média próxima de 0,05 miligramas. São quantidades pequenas, mas os investigadores avisam que se desconhece o que significa uma exposição baixa mas repetida durante o desenvolvimento inicial.

Aviso legal

Este material tem fins exclusivamente informativos e educativos e expõe os resultados de um único estudo científico em fase inicial. Não constitui aconselhamento médico e não deve ser usado para tomar decisões sobre o consumo de cannabis, a amamentação ou os cuidados a um bebé. A investigação descrita baseia-se numa amostra pequena e não pode provar causa, efeito nem segurança. Quem estiver grávida, a amamentar ou a cuidar de um lactente deve colocar a sua situação concreta a pessoal de saúde qualificado. As normas sobre a cannabis diferem de país para país e mudam ao longo do tempo.

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