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Jay and Silent Bob's Joint Venture

Jay and Silent Bob’s Joint Venture: o videojogo que transforma o cultivo de canábis num simulador tranquilo

Há trinta anos que o Jay e o Bob Silencioso estão à porta de uma loja de conveniência algures em Nova Jérsia, a vender saquinhos e a dizer coisas que nenhum editor deixaria passar. Agora metem-se na agricultura — e a enxada fica com o jogador.

Na San Diego Comic-Con, o realizador Kevin Smith anunciou Jay and Silent Bob’s Joint Venture, um simulador de quinta dedicado ao cultivo de canábis que deverá chegar ao PC em 2027. A notícia foi avançada pelo Hollywood Reporter, que descreve o projeto como um “adult cozy farm sim” suportado pela Nitrate Games, uma editora independente criada este ano. Tanto Smith como Jason Mewes — os atores por trás do Bob e do Jay — participaram no desenvolvimento, e a página na Steam apareceu poucas horas depois do anúncio.

Parece mais um produto licenciado sem grande interesse, mas o que salta à vista é outra coisa. Este será o primeiro caso em que o cultivo de canábis deixa de ser cenário ou piada de fundo para passar a ser a mecânica central do jogo — aquilo a que o jogador dedica vinte horas seguidas. E isso descreve com bastante rigor o que aconteceu ao tema na cultura americana na última década. O que nos anos noventa dava para uma comédia sobre dois desocupados é, em 2026, um género com regras próprias.

O essencial. Jay and Silent Bob’s Joint Venture foi apresentado na Comic-Con 2026 e sai em 2027 para PC através da Steam, desenvolvido pela Starworks Studios e editado pela Nitrate Games. É um simulador de construção sossegado, para um só jogador, na linha de Stardew Valley, com a diferença de a cultura ser canábis e o humor ser assumidamente para adultos. O jogador transforma um quintal ao abandono numa plantação, cruza plantas para obter variedades com efeitos exagerados e convive com personagens e lugares do universo cinematográfico de Kevin Smith. Smith e Mewes estão envolvidos na criação. Os responsáveis fazem questão de esclarecer que se trata de cultivo legal dentro de um mundo ficcional, e o aviso de conteúdo para adultos da Steam indica que não há representação realista de abuso de substâncias. Para o leitor português há uma ironia difícil de ignorar: a estufa industrial que o jogo trata como vilã é, em boa medida, aquilo em que Portugal se tornou.

De que trata exatamente o jogo

O ponto de partida é mesquinho e por isso resulta: o Jay e o Bob vendem-te material estragado e, para compensar, metem-te como sócio no negócio. Herdas um quintal cheio de lixo, umas ferramentas velhas e um punhado de sementes. O objetivo é construir a melhor operação da região.

A Steam classifica-o como Casual, Indie e Simulação, apenas para um jogador, e os requisitos são modestos: bastam uma GTX 1050 Ti e 6 GB de memória. Promete-se que não há forma de perder, que não existe pressão de tempo e que não haverá compras dentro da aplicação. Os próprios autores descrevem-no como uma aventura de quinta tão acolhedora quanto francamente obscena. É aí que está a aposta: mecânicas genuinamente relaxantes embrulhadas em diálogos genuinamente ordinários.

Além das plantas, há uma vila para explorar. Leonardo, no estado de Nova Jérsia, foi reconstruída em 3D, com a loja Quick Stop, o videoclube RST Video, o restaurante Mooby’s e o centro comercial como cenários visitáveis. Dezenas de personagens têm diálogos e missões próprias, que se desbloqueiam à medida que a amizade cresce. Há até uma mecânica para vasculhar contentores do lixo, o que ou é um simulador de freeganismo ou é o pormenor mais fiel à marca em toda a história dos videojogos.

Stardew Valley, mas para adultos

O género das quintas acolhedoras tem sido notoriamente inocente. O Farmville jogava-se com a tia. O Stardew Valley é, no fundo, sobre luto, vizinhança e nabos. O Animal Crossing é um simulador de crédito à habitação com um guaxinim que fala.

O Joint Venture pega em todo o vocabulário do género — plantar, regar, colher, decorar, fazer amigos — e aponta-o para onde o género nunca tinha ido. Smith anunciou o projeto no tom que se espera dele, incluindo um trocadilho sobre jogar consigo próprio que não há maneira decente de traduzir. A pergunta a sério é outra: se o ritmo sereno de um simulador de quinta sobrevive a um guião que aponta sistematicamente abaixo da cintura. Ninguém tentou isto a valer até agora.

“Cruzar variedades lendárias”: como funciona mesmo a genética

Uma das funcionalidades anunciadas merece um confronto com a realidade, porque é onde os jogadores vão passar mais tempo: cruzar plantas para descobrir genéticas novas com efeitos disparatados.

No jogo isso demorará minutos. Na vida real demora anos. Um melhorador cruza duas plantas-mãe, cultiva a primeira geração, depois a seguinte, e a seguinte, à procura de fenótipos que mantenham as características de forma estável ao longo das gerações. A produção de canabinoides e terpenos é poligénica — é controlada por muitos genes a atuar em simultâneo — e depende ainda da temperatura, do espetro de luz e da nutrição. Por isso a mesma genética cultivada em duas salas diferentes dá resultados percetivelmente distintos. A maioria dos cruzamentos é descartada, e por trás de uma única variedade comercialmente viável pode estar uma década de seleção.

Há também o problema dos nomes. O que aparece no rótulo é sobretudo marketing e não botânica. Vários estudos genéticos mostraram que plantas vendidas com o mesmo nome em sítios diferentes muitas vezes nem sequer são aparentadas, e que a divisão habitual entre índica e sativa tem pouco suporte químico. O que diz alguma coisa é o quimiotipo: o perfil medido de canabinoides e terpenos.

Nada disto é uma crítica ao jogo. Um simulador que modelasse ciclos de oito meses com rigor seria injogável. Mas se o Joint Venture levar sequer uma fatia do seu público a interessar-se pelo funcionamento real da planta, terá conseguido mais do que a generalidade dos jogos licenciados.

“Antes de chegarem as corporações”: a piada com fundo real

Na descrição do jogo há uma frase que soa a graça de passagem: que ali as coisas se fazem à moda antiga, como se fazia antes de a canábis corporativa chegar à vila.

Não é uma graça, é o conflito central da indústria legal. À medida que a regulação avança, os pequenos produtores ficam espremidos entre custos de licenciamento, exigências de análise, concentração da distribuição e uma queda continuada dos preços, enquanto as grandes empresas absorvem o mercado. A economia premeia a escala e não o ofício, e muita da gente que construiu esta cultura já não consegue suportar a indústria que nasceu do seu trabalho. Analisámos ao pormenor qual é afinal a dimensão do mercado da canábis em 2026 e porque é que as previsões divergem tanto.

A mesma piada tem uma segunda camada, ligada à qualidade. No mercado norte-americano, “legal” nem sempre quer dizer “limpo”: os controlos de pesticidas, metais pesados e fungos variam muito de estado para estado, a recolha de lotes tornou-se rotina e o teor declarado no rótulo afasta-se com frequência do real. Revimos o que revelaram as análises à canábis legal nos Estados Unidos e porque é que o retrato saiu mais complicado do que o discurso publicitário. Ou seja, um jogo cujo coração emocional é a pequena plantação a bater-se contra a corporação está a contar, de propósito ou não, a história que a indústria atravessa neste momento.

Portugal é, precisamente, a corporação da piada

Vale a pena dizê-lo, porque na conversa internacional passa quase sempre ao lado. Portugal é conhecido lá fora pela descriminalização do consumo de todas as drogas, em vigor desde 2001, que retirou o consumidor do sistema penal e o passou para a esfera da saúde, com as comissões de dissuasão a tratar o assunto. É esse o “modelo português” que aparece citado em todo o mundo.

Menos falado é o que aconteceu a seguir. Com a Lei n.º 33/2018 a enquadrar o uso medicinal e o Infarmed como regulador, Portugal tornou-se um dos maiores produtores europeus de canábis para fins medicinais, com estufas industriais licenciadas a produzir sobretudo para exportação, alimentando mercados como o alemão. Isto é: o país cultiva legalmente toneladas de canábis por ano, num modelo intensivo, empresarial e orientado para a exportação — enquanto a venda para uso não medicinal continua fora da lei em território nacional.

O contraste com a fantasia do jogo é quase cómico. O Joint Venture romantiza o quintal contra a estufa das corporações; Portugal, sem grande alarido, tornou-se a estufa. E o pequeno cultivador português, esse, não tem qualquer via legal para vender o que produz.

Quem faz e quando sai

O desenvolvimento está a cargo da Starworks Studios, uma pequena equipa independente de Filadélfia com créditos anteriores que incluem o jogo de plataformas e puzzles Timeworks. A editora é a Nitrate Games, fundada este ano por Daniel Kendrick, Montana Sommese e Nick Madonna.

Os nomes pesam mais do que sugere o rótulo de “editora independente nova”. Kendrick dirigiu a IDW Entertainment e trabalhou em projetos de jogo e de ecrã ligados a Locke & Key, Wynonna Earp, 30 Days of Night, Godzilla e Sonic the Hedgehog, tendo sido ainda coprodutor executivo de Batman Azteca para a Warner Bros. Animation. Sommese passou cerca de quinze anos a adaptar propriedades de Hollywood para videojogos, com passagens pela Warner Bros. e pela Fox. Madonna, responsável pelo desenvolvimento na Nitrate, trabalhou em títulos para a Saber Interactive, a Square Enix e a Vivendi Universal, e dirige a PHL Collective, estúdio por trás de jogos de Star Wars, Justice League e Bob Esponja.

Chase Marotz é o diretor criativo do Joint Venture e Ernie Altbacker assina o guião. A Nitrate deixou ainda perceber interesse em adaptar o filme de culto de 1978 O Ataque dos Tomates Assassinos, o que diz basicamente tudo sobre o gosto da casa.

A janela de lançamento é 2027, em PC via Steam. Não há data concreta, preço nem versões de consola confirmadas. Por agora, o único idioma listado é o inglês. A página já permite adicionar o jogo à lista de desejos, que é o mecanismo com que os projetos independentes sobrevivem aos dois anos entre o anúncio e o lançamento.

Perguntas frequentes

Quando sai o Jay and Silent Bob’s Joint Venture e em que plataformas?

Está anunciado para 2027 em PC através da Steam. Não há versões de consola confirmadas, nem data nem preço definidos. Os requisitos mínimos são modestos, pelo que deverá correr em máquinas de gama média dos últimos anos.

O jogo ensina mesmo a cultivar?

Não. É um simulador ficcional e não um guia de cultivo. Plantar, cruzar, colher e vender existem apenas dentro da história, com processos muito simplificados e comprimidos no tempo. O aviso da Steam indica que o consumo é apresentado de forma estilizada e cómica, sem representação realista de abuso de substâncias.

Vai ter legendas em português?

Para já, a ficha da Steam lista apenas inglês. É habitual em anúncios tão precoces e não significa que uma localização esteja excluída: as decisões de idioma costumam ser tomadas bastante mais perto do lançamento, sobretudo em projetos independentes.

Como está isto regulado em Portugal e no Brasil?

São enquadramentos distintos e não devem ser confundidos. Em Portugal, o consumo e a posse para uso pessoal estão descriminalizados desde 2001, sendo tratados como matéria de saúde pública através das comissões de dissuasão; o uso medicinal é enquadrado pela Lei n.º 33/2018 e supervisionado pelo Infarmed, existindo produção licenciada para fins medicinais e exportação, mas não venda legal para uso recreativo. No Brasil, a Lei n.º 11.343/2006 continua a ser a base do sistema, com o Supremo Tribunal Federal a ter fixado um critério de referência para distinguir consumidor de traficante, a Anvisa a regular por resolução a importação e comercialização de produtos à base de canábis, e autorizações judiciais obtidas por associações de pacientes a permitirem cultivo para fins terapêuticos em casos concretos. Este artigo é informativo e não constitui aconselhamento jurídico; aplica-se sempre a legislação em vigor no país de residência, que muda com frequência.

Aviso legal

Este artigo destina-se exclusivamente a fins informativos e jornalísticos. Descreve um videojogo anunciado e o contexto de indústria que lhe está associado, não constituindo aconselhamento jurídico, médico ou financeiro. Não contém qualquer incentivo ao cultivo, aquisição, posse ou consumo de canábis. A legislação varia de forma significativa entre países e jurisdições e é alterada com frequência: o que é lícito num lugar pode implicar sanções graves noutro. Cabe a cada leitor consultar as normas aplicáveis na sua jurisdição e procurar aconselhamento profissional qualificado sempre que necessário. Os dados sobre data de lançamento, plataformas e conteúdo refletem a informação pública disponível à data de fecho desta edição e podem sofrer alterações.

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