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Cannabis contra o cancro da pele: cientistas identificam canabinoides que podem tornar-se um novo tratamento

Em fevereiro de 2026, a revista científica com revisão por pares Pharmaceuticals publicou um estudo que responde a uma questão fundamental: podem os compostos naturais da cannabis atuar com precisão sobre vários “interruptores” moleculares que desencadeiam e mantêm o cancro da pele? Investigadores de Marrocos e dos Emirados Árabes Unidos identificaram precisamente esses compostos — eficazes e, o que é crucial, seguros.

O cancro de pele no Brasil: uma realidade alarmante

Antes de falar sobre ciência molecular, vale a pena compreender a dimensão do problema que esta investigação procura enfrentar — especialmente no contexto brasileiro.

O cancro da pele é a neoplasia mais comum entre os brasileiros, representando 31,3% de todos os casos de cancro no país. PubMed Central Os números são inequívocos: as taxas de morbilidade por 100 000 habitantes aumentaram de 14,88 para 27,69 entre 2012 e 2022, enquanto as taxas de mortalidade subiram de 0,35 para 0,54 no mesmo período. PubMed Central

O melanoma, embora represente apenas uma fração dos casos, é o tipo mais letal. Apesar de corresponder a apenas 3% a 4% dos tumores cutâneos malignos, é responsável por mais de 75% das mortes por cancro da pele. PubMed CentralEntre 2000 e 2013, a taxa de incidência de melanoma nos homens subiu de 2,52 para 4,84 por 100 000 habitantes, com uma variação percentual anual média de +21,5%. Nas mulheres, o aumento foi de 1,93 para 3,22 por 100 000. PubMed

A geografia também importa: as regiões Sul e Sudeste do Brasil concentram os maiores índices de incidência, em parte devido à maior prevalência de população de pele clara — 75,1% no Sul e 50,7% no Sudeste. PubMed Central Em aproximadamente uma década, entre 2008 e 2017, cerca de 33 000 brasileiros morreram em consequência do cancro da pele. PubMed Central

Face a estes números, qualquer avanço científico nesta área assume uma relevância particular para o Brasil.

Três inimigos no mesmo campo

Para compreender do que trata este estudo, é necessário fazer uma breve incursão na biologia tumoral.

Uma célula cancerosa não é simplesmente uma célula “avariada”. É uma célula que aprendeu a contornar todos os mecanismos de controlo integrados no organismo. Para isso, explora determinadas proteínas sinalizadoras que enviam continuamente ordens: “cresce”, “divide-te”, “não morras”. Três dessas proteínas estão particularmente bem estudadas no contexto do cancro da pele.

EGFR — o receptor do fator de crescimento epidérmico. Em condições normais, responde a sinais externos e ativa a divisão celular quando necessário — por exemplo, durante a cicatrização de feridas. Nas células tumorais, funciona em modo permanente de “ligado”, impulsionando sem trégua a célula para uma proliferação descontrolada.

BRAF V600E — uma versão mutada da proteína BRAF, particularmente frequente no melanoma. A letra “V” e os números no nome identificam o ponto exato da molécula onde ocorreu a “avaria”. O BRAF normal ativa-se e desativa-se consoante as necessidades; o mutante ficou bloqueado na posição “ligado”, desencadeando uma cascata de sinais que conduz a um crescimento tumoral agressivo.

TGF-β — o fator de crescimento transformante beta, o mais ambíguo dos três. Nas fases iniciais da doença suprime o crescimento tumoral, mas à medida que o tumor avança “muda de lado”: começa a ajudar as células cancerosas a disseminarem-se pelo organismo e a escapar ao sistema imunitário.

Os medicamentos atuais visam geralmente uma destas vias. Isso é eficaz, mas os tumores têm uma propriedade desagradável: elimine uma via e encontrarão outra. É precisamente por isso que os cientistas procuram cada vez mais moléculas chamadas multi-alvo — capazes de bloquear simultaneamente várias vias de sinalização.

49 candidatos de uma única planta

Cannabis sativa é um reservatório fitoquímico extraordinariamente rico. Mais de quinhentos compostos biologicamente ativos foram identificados na planta. Os autores do estudo selecionaram 49 deles — canabinoides e terpenos — e utilizaram modelação computacional para avaliar com que precisão cada um se poderia “encaixar” no centro ativo de cada uma das três proteínas-alvo.

O método utilizado denomina-se acoplamento molecular ou docking. Imagine uma fechadura e uma chave: a forma de uma molécula ligando deve corresponder à forma de uma cavidade na superfície da proteína para que se forme uma ligação estável. O computador calcula a energia desta interação — quanto mais negativo for o valor, mais firmemente a “chave” se assenta na “fechadura” e maior a probabilidade de a molécula bloquear a atividade da proteína.

Importa referir que os investigadores trabalharam principalmente com canabinoides neutros. Porém, os seus precursores ácidos — CBDA, CBGA e outros — também apresentam um potencial terapêutico crescente, que explorámos em detalhe num artigo dedicado.

Como referência foram utilizados três fármacos padrão: erlotinib (inibidor do EGFR), vemurafenib (inibidor do BRAF V600E) e galunisertib (inibidor do TGF-β). Os três são medicamentos aprovados utilizados na prática clínica.

Três vencedores

De entre os 49 candidatos, um trio destacou-se com resultados notáveis. Trata-se dos compostos que os autores designaram C5, C6 e C7 — conhecidos na linguagem corrente como tetrahidrocanabivarina (THCV), canabinol (CBN) e delta-9-tetrahidrocanabinol (Δ⁹-THC, dronabinol).

Os três demonstraram uma afinidade de ligação superior às três proteínas-alvo em comparação com os respetivos fármacos de referência.

Mas números impressionantes do docking são apenas o primeiro passo. Para confirmar que a ligação se mantém estável não só num momento pontual mas ao longo do tempo, os investigadores realizaram simulações de dinâmica molecular— modelações computacionais do comportamento dos complexos proteína-ligando durante 200 nanossegundos (um tempo extraordinariamente longo à escala molecular).

Foram analisados vários parâmetros. O RMSD indica em que medida a estrutura espacial da proteína se modifica — valores pequenos significam estabilidade. O RMSF descreve a mobilidade de regiões individuais — se a proteína se “estabiliza” após a ligação de um ligando, isso é um sinal positivo. O raio de giração reflete a compacidade global da molécula, enquanto a área de superfície mostra como o contacto da proteína com a água envolvente evoluiu.

Os resultados foram encorajadores: os três complexos mantiveram a sua estabilidade ao longo de toda a simulação. Cada composto permaneceu firmemente ancorado na sua cavidade de ligação, sem se desprender nem perder os contactos fundamentais. O CBN mostrou o maior efeito estabilizador sobre o EGFR, o THCV sobre o TGF-β, e o Δ⁹-THC sobre tanto o EGFR como o BRAF V600E.

A confirmação final veio dos cálculos de energia livre de ligação pelo método MM-GBSA — uma avaliação termodinâmica da força de interação mais precisa do que o docking isoladamente. Os valores obtidos confirmaram que os complexos são termodinamicamente favoráveis, ou seja, a sua formação é energeticamente “preferida” pela natureza.

E a segurança?

Esta é provavelmente a questão mais importante para qualquer agente terapêutico potencial.

Os autores realizaram uma detalhada análise ADMET — uma avaliação computacional do comportamento das moléculas no organismo. O acrónimo corresponde a Absorção, Distribuição, Metabolismo, Excreção e Toxicidade.

O panorama que emergiu foi muito encorajador. Os três compostos satisfazem a chamada regra de Lipinski — um conjunto de critérios simples que correlacionam bem com a aptidão de uma molécula para se tornar um medicamento (peso molecular, solubilidade em gorduras, número de ligações de hidrogénio, etc.). A lipofilia dos três — ou seja, a sua capacidade de se dissolver em gorduras — situou-se no intervalo ótimo para a penetração através das camadas ricas em lípidos da pele.

Os coeficientes de permeabilidade cutânea calculados indicam uma absorção transdérmica moderada: suficiente para transportar o princípio ativo até às camadas-alvo, mas sem entrada sistémica excessiva na corrente sanguínea. Isto é particularmente importante para as formas de uso tópico (externo).

Nenhum dos três compostos evidenciou sinais de hepatotoxicidade, carcinogenicidade, mutagenicidade ou citotoxicidade nas previsões computacionais. As doses letais medianas (DL₅₀) para o THCV e o Δ⁹-THC foram de 482 mg/kg, enquanto para o CBN atingiram os 13 500 mg/kg — o que corresponde a uma toxicidade aguda extremamente baixa.

Nenhum dos candidatos inibe as enzimas-chave do sistema do citocromo P450, responsável pelo metabolismo da maioria dos medicamentos — o que implica um baixo risco de interações medicamentosas indesejadas.

O que isto significa — e o que não significa

A honestidade é aqui indispensável.

Este estudo é inteiramente computacional. Sem culturas celulares, sem ratinhos, sem doentes. Isso não é uma falha nem uma tentativa de iludir o leitor — é a primeira etapa normal da descoberta moderna de fármacos. A modelação computacional permite filtrar milhares de candidatos para reter um punhado dos mais promissores, concentrando as dispendiosas experiências precisamente onde as hipóteses de sucesso são maiores.

O caminho destes resultados até ao balcão da farmácia é longo e difícil de prever. Ainda estão por realizar experiências em culturas celulares, modelos animais e, por fim, ensaios clínicos em seres humanos. Uma molécula pode falhar em qualquer uma destas etapas. Tal é a realidade da farmacologia.

Não obstante, a importância deste trabalho não deve ser subestimada. Ele transmite vários sinais relevantes.

Em primeiro lugar, demonstra que os compostos presentes na cannabis podem teoricamente atuar sobre vários alvos oncogénicos fundamentais em simultâneo — algo difícil de alcançar com um único fármaco sintético.

Em segundo lugar, oferece razões para acreditar que tal ação poderá ser possível sem toxicidade pronunciada.

Em terceiro lugar, o estudo estabelece uma agenda experimental clara: os cientistas sabem agora exatamente quais os compostos a testar, contra que alvos, e podem verificar se os resultados laboratoriais coincidem com as previsões computacionais.


FAQ: canabinol, THCV e THC — o que são estas moléculas?

O que é o THCV e em que difere do THC?

O THCV (tetrahidrocanabivarina) é um “primo” estrutural do THC com uma cadeia lateral mais curta. Encontra-se na cannabis em quantidades relativamente pequenas, não produz efeitos psicoativos significativos a doses habituais e está a ser ativamente investigado pelo seu potencial antidiabético e neuroprotetor.

O que é o CBN e por que se fala tão pouco dele?

O canabinol (CBN) é um produto de oxidação do THC — é naquilo que o THC se transforma gradualmente quando a planta é armazenada por longos períodos. A psicoatividade do CBN é significativamente inferior à do THC. O composto está a ser estudado como agente sedativo e antibacteriano potencial, mas permanece na sombra dos canabinoides mais conhecidos no discurso público.

O THC não é simplesmente uma substância psicoativa?

O Δ⁹-THC é o canabinoide mais conhecido, responsável pelos efeitos psicoativos da cannabis. Ao mesmo tempo, a sua atividade anticancerígena é um dos aspetos mais bem documentados da farmacologia dos canabinoides na investigação pré-clínica. Sob a forma de dronabinol, o THC é aprovado pela FDA como medicamento — contra as náuseas associadas à quimioterapia e a perda de apetite em doentes com SIDA.

Estas substâncias podem ser usadas como medicamento agora?

Não. Este estudo é de natureza computacional e representa apenas a primeira etapa do desenvolvimento. Antes de se poder considerar uma aplicação clínica, são necessárias experiências em culturas celulares e modelos animais e, em última instância, ensaios clínicos em seres humanos. Contudo, são precisamente trabalhos como este que definem a direção para as próximas etapas.

Esta investigação é relevante apenas para o cancro da pele?

De forma alguma. Os alvos moleculares estudados — EGFR, BRAF V600E e TGF-β — estão implicados também noutros tipos de cancro. O interesse da ciência pelos canabinoides vai muito além da dermatologia: já demos conta de um estudo promissor sobre o CBD no cancro do rim, que aponta igualmente para um encorajador potencial antitumoral dos canabinoides.

O que vem a seguir: creme ou cápsula?

Os autores sublinham particularmente o potencial dos seus candidatos para formulações tópicas — pomadas, cremes, géis. Isso é lógico: o cancro da pele está localizado precisamente onde as preparações externas podem chegar diretamente, contornando os desafios da biodisponibilidade sistémica. Os parâmetros de permeabilidade cutânea calculados sugerem que os compostos podem penetrar suficientemente fundo para atingir as células da epiderme viável e da derme — sem se acumularem no sangue em concentrações perigosas.

Os investigadores assinalam ainda o potencial mais amplo dos compostos identificados. Os mesmos alvos moleculares — EGFR, BRAF V600E e TGF-β — estão implicados não só no cancro da pele como também noutras neoplasias malignas, bem como em doenças inflamatórias e fibróticas. Por outras palavras, se as experiências laboratoriais confirmarem as previsões computacionais, o espetro de aplicação poderá estender-se para além da oncologia dermatológica.


Em conclusão

A história da medicina está repleta de exemplos de compostos naturais que se tornaram a base de terapêuticas — a aspirina da casca do salgueiro, a morfina da papoila, o taxol do teixo. A Cannabis sativa, com as suas quinhentas moléculas ativas, é uma candidata evidente a integrar essa lista.

O trabalho da equipa marroquino-emiradense não é uma sensação nem a promessa de um remédio milagroso. É uma contribuição científica rigorosa para compreender com o que estamos realmente a lidar quando falamos do potencial terapêutico da cannabis. Agora a palavra pertence ao laboratório.


Fonte: El Bouamri L. et al. Integrated Computational Investigation of Cannabis sativa Phytoconstituents as Putative Multi-Target Inhibitors in Skin Cancer. Pharmaceuticals, 2026, 19, 315.


Aviso legal

Este artigo destina-se exclusivamente a fins informativos e educativos. Os dados apresentados baseiam-se nos resultados de um estudo computacional (in silico) e não constituem prova clínica da eficácia ou segurança dos compostos mencionados em seres humanos. Nenhuma das substâncias descritas está aprovada como agente antineoplásico pelas autoridades reguladoras de qualquer país, exceto nos casos expressamente indicados no texto.

A redação de The Cannex não presta aconselhamento médico nem promove a automedicação. Se você ou um ente querido foi diagnosticado com cancro, consulte um oncologista qualificado. Qualquer decisão relacionada com o tratamento deve ser tomada exclusivamente em conjunto com um médico licenciado.

O estatuto jurídico da cannabis e dos seus derivados varia consideravelmente entre países. A redação não assume qualquer responsabilidade por ações dos leitores que infrinjam a legislação do seu país de residência.

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